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Turnover por setor

Turnover no varejo e em supermercados: o que fazer

Por que varejo e supermercado giram tanto, quais cargos mais trocam, quanto isso custa e o que realmente funciona para segurar a equipe na loja.

Marcos Dantas10 min de leitura

O turnover no varejo e em supermercados é mais alto que a média do mercado por motivos estruturais, não porque o seu RH é ruim. Jornada com noite e fim de semana, escala apertada, sazonalidade pesada, cargos de entrada sem exigência de experiência e cinco lojas disputando o mesmo candidato no mesmo bairro.

A resposta curta, para quem só quer saber o que fazer: nesse setor o que segura equipe é escala previsível, encarregado bem treinado, integração curta e bem feita, caminho claro do caixa até a encarregatura e reconhecimento semanal. Aumentar salário sozinho quase não muda nada numa região onde todo mundo paga perto do piso da convenção.

Os números dão o tamanho do buraco. Segundo o Sindilojas-SP, com base no Novo Caged, a rotatividade celetista no varejo da cidade de São Paulo chegou a 60,3% em 2025, o maior patamar da série iniciada em 2020. Para efeito de comparação, somando todos os setores do estado de São Paulo o indicador ficou em 56,6% no mesmo ano. E dentro do varejo paulistano, quem lidera são minimercados, mercearias e armazéns, com 77,8%.

Por que o turnover no varejo é estruturalmente mais alto

Não existe uma causa única. Existem quatro, e elas se reforçam.

Jornada e escala

Loja abre cedo, fecha tarde, funciona sábado, domingo e feriado. Supermercado ainda tem reposição noturna e pico no fim de semana, justamente quando a pessoa queria estar em casa. A escala 6x1 é comum no setor, e quem trabalha nela nem sempre sabe com antecedência quando vai folgar. Vale conferir na sua operação quantas saídas têm relação com a escala: é um motivo que aparece na conversa com quem sai e quase nunca é registrado no relatório de desligamento.

Sazonalidade

Dezembro, Páscoa, volta às aulas. O varejo contrata em bloco e desliga em bloco. Parte da rotatividade que aparece no indicador é temporário virando desligamento programado. Se você não separa esse volume, acha que tem um problema de clima quando tem um problema de calendário. Vale entender os diferentes tipos de turnover antes de tirar conclusão.

Perfil de entrada

Operador de caixa, repositor e empacotador são portas de entrada no mercado formal. Gente jovem, primeiro emprego, sem experiência anterior. É um perfil que testa, compara e sai rápido, porque ainda está descobrindo o que quer. Não é defeito da pessoa, é característica do cargo.

Concorrência local e dispersão das lojas

Esse é o ponto que o dono de rede sente na pele. O seu concorrente não é a rede nacional, é a loja da esquina, a farmácia, o restaurante e o centro de distribuição que abriu ali perto. Todos pagam valores parecidos e todos precisam de gente ao mesmo tempo. A pessoa troca de emprego por uma diferença pequena de salário e alguns minutos a menos de deslocamento.

Some a isso a dispersão. Numa rede de algumas centenas de pessoas há várias lojas, turnos diferentes e dezenas de encarregados. A gestão varia de loja para loja, e o turnover segue essa variação de perto.

No varejo, quem segura a equipe não é o RH da matriz. É o encarregado que monta a escala e o gerente que sabe o nome de todo mundo.

Quais cargos mais giram no varejo e no supermercado

A movimentação por cargo mostra onde o problema mora. Os dados abaixo vêm do Portal Salário, que processa a base do CAGED, no período de julho de 2025 a junho de 2026, só regime CLT, Brasil inteiro. Cada cargo tem a sua página, como a do operador de caixa.

Cargo (CBO) Movimentações em 12 meses Salário médio
Vendedor de comércio varejista (5211-10) 2.077.092 R$ 1.926,64
Operador de caixa (4211-25) 1.450.430 R$ 1.881,84
Repositor de mercadorias (5211-25) 927.834 R$ 1.859,04
Açougueiro (8485-10) 327.695 R$ 2.128,58

Movimentação é a soma de admissões e desligamentos. Mais de 2 milhões só em vendedor, em doze meses, dá a dimensão do rodízio permanente do setor.

Repare no açougueiro. O volume é bem menor, mas o impacto de perder um é desproporcional: cargo técnico, formação demorada, seção de margem alta. Perder um açougueiro no sábado de manhã custa muito mais do que perder um empacotador.

Quanto isso custa quando você tem muita gente

No varejo, o custo do turnover não vem do valor unitário da troca, que é baixo por ser cargo de entrada. Vem do volume. É o mesmo problema de margem que o setor já conhece: pouco por unidade, muito no total.

Uma conta ilustrativa, só para ver o mecanismo. Imagine uma rede com 6 lojas e 400 colaboradores, rodando a 55% de turnover ao ano. São 220 desligamentos em doze meses. Suponha que cada troca custe R$ 8 mil somando rescisão, recrutamento, exames, uniforme, integração e o tempo até a pessoa produzir como quem saiu. Dá R$ 1,76 milhão no ano.

Esses R$ 8 mil são um número de exemplo, não um dado de mercado. Levante o seu, porque ele muda muito conforme o cargo e a região. O caminho está no guia sobre o custo real do turnover, e a primeira estimativa sai em minutos na calculadora de turnover.

Tem ainda o custo que não entra em planilha: fila no caixa, gôndola vazia, ruptura, perda no hortifrúti e cliente atendido por alguém que está na loja há três dias. A rotatividade aparece na experiência do cliente antes de aparecer no resultado.

Varejo, serviços e indústria: por que a comparação importa

Comparar a sua taxa com a média nacional de todos os setores não ajuda. O comércio sempre girou mais.

Um estudo do Dieese sobre rotatividade no mercado de trabalho brasileiro, com dados de 2001 e 2009, já mostrava comércio e serviços com taxas próximas ou acima de 50%, acima da média do mercado formal. A indústria de transformação ficava perto dessa média, e construção civil e agricultura passavam de 100%. É um retrato antigo, mas útil: a diferença entre os setores é estrutural, não fruto de um ano ruim.

No varejo alimentar o padrão se confirma. Levantamento da Future Tank, consultoria da Asserj, divulgado pela SA+ Varejo em 2024, apontou 58,2% de rotatividade nos supermercados brasileiros, com variação forte entre estados: 37,9% no Rio de Janeiro, 52,8% em São Paulo, 68,1% em Minas Gerais e 70,1% no Espírito Santo.

Compare com o seu setor, com a sua região e com as suas próprias lojas. Uma loja a 30% e outra a 80%, com o mesmo cargo e o mesmo salário, é a prova mais barata de que o problema é gestão, não mercado. Para saber onde você deveria estar, veja o índice de turnover ideal por setor.

O que funciona na prática no varejo

Cinco medidas concentram o que mais muda o dia a dia da loja. Nenhuma delas é cara.

Escala previsível. Publique a escala do mês inteiro com antecedência real e respeite. Folgas visíveis e regra clara de troca entre colegas. Previsibilidade vale mais do que aumento pequeno para quem tem filho, faculdade ou segundo trabalho.

Encarregado treinado. A Gallup estima que os gestores respondem por pelo menos 70% da variação no engajamento entre equipes. No varejo, esse gestor é o encarregado, quase sempre promovido por ser bom operador e quase nunca treinado para liderar. Treine feedback, conversa difícil e montagem de escala.

Integração curta e boa. Ninguém aguenta oito horas de sala. Faça dois dias bem feitos: segurança, sistema, padrão de atendimento, tour na loja, apresentação nominal da equipe e um padrinho definido. Marque conversas no dia 7, no 30 e no 60. Meça quanto do seu giro acontece antes dos 90 dias de casa: em cargo de entrada, esse recorte costuma ser o mais fácil de atacar.

Plano de crescimento do caixa ao encarregado. Desenhe a trilha em uma página: empacotador, operador de caixa, fiscal de caixa, encarregado, gerente. Diga o que a pessoa precisa dominar em cada degrau. Promova gente de dentro e conte a história para toda a rede.

Reconhecimento semanal. Reunião de 10 minutos no início do turno, citando nome e resultado. Sem cerimônia, sem placa, sem custo. Semanal, porque no varejo o ritmo é diário e a memória é curta.

Essas cinco frentes se encaixam num plano maior, com diagnóstico, prioridade e prazo. O passo a passo está no guia sobre como reduzir o turnover na sua empresa.

O que não funciona: mexer só no salário

O erro mais comum e mais caro do setor é responder à rotatividade com aumento linear. Numa região onde todas as lojas pagam perto do mesmo valor, o aumento não cria vantagem, cria custo fixo. O concorrente cobre em duas semanas e você fica com a folha maior e o mesmo giro.

Outras armadilhas que aparecem sempre:

  • Contratar em massa para tapar buraco, sem selecionar, e demitir em massa três meses depois.
  • Culpar a geração mais nova em vez de olhar a escala e o encarregado.
  • Medir só a média da rede, o que esconde a loja que está quebrando.
  • Tratar entrevista de desligamento como formalidade do DP.

Salário importa quando está abaixo do mercado local. Quando está na média, o que decide é escala, chefe e perspectiva. As causas mais comuns do turnover confirmam esse padrão.

Checklist para as próximas 12 semanas

  • Calcular a taxa de turnover separada por loja, por cargo e por tempo de casa
  • Separar os desligamentos de temporários de sazonalidade do restante
  • Comparar as duas lojas com maior giro com as duas melhores da rede
  • Medir quantos desligamentos acontecem antes dos 90 dias de casa
  • Publicar a escala do mês inteiro com antecedência em todas as lojas
  • Definir padrinho para cada novo colaborador e conversas no dia 7, 30 e 60
  • Treinar todos os encarregados em feedback e conversa difícil
  • Desenhar a trilha do caixa ao encarregado em uma página
  • Tabular os motivos de saída por loja e levar o custo anual para a diretoria

Se a sua rede ainda não tem o número exato, comece por como calcular o turnover corretamente. Sem esse indicador por loja, qualquer plano vira palpite.

O movimento Código do Turnover discute esse tipo de operação com donos e diretores que vivem o problema todo dia. Acompanhe as datas na página de eventos do movimento.

Perguntas frequentes

Qual é a taxa de turnover normal no varejo?

Não existe número oficial único, mas o setor gira acima da média do mercado formal. Com base no Novo Caged, o Sindilojas-SP apurou 60,3% no varejo da capital paulista em 2025, contra 56,6% na soma de todos os setores do estado de São Paulo. Compare a sua rede com o seu subsetor e com as suas próprias lojas, nunca com a média geral do país.

Por que supermercado tem rotatividade tão alta?

Porque junta tudo de uma vez: jornada com noite, sábado e domingo, escala 6x1, pico de movimento no fim de semana, cargos de entrada com baixa exigência de formação e muita concorrência local pela mesma mão de obra. Checkout e reposição são as áreas que mais sentem.

Qual cargo do varejo tem mais rotatividade?

Em volume, vendedor, operador de caixa e repositor lideram com folga, somando milhões de movimentações por ano no CAGED. O açougueiro gira menos em volume, mas dói mais: é cargo técnico, de formação demorada, numa seção de margem alta.

Aumentar o salário resolve o turnover no varejo?

Só quando o seu salário está claramente abaixo do mercado local. Se todas as lojas da região pagam valor parecido, o aumento vira custo fixo sem vantagem, porque o concorrente cobre rápido. Escala previsível, encarregado preparado e caminho de crescimento seguram mais gente pelo mesmo dinheiro.

Como reduzir a saída de novatos nos primeiros 90 dias?

Faça uma integração curta e bem feita, de no máximo dois dias, com padrinho definido e apresentação nominal da equipe. Marque conversas no dia 7, 30 e 60 para ouvir a pessoa antes que ela decida sair. E meça quantos desligamentos da rede acontecem antes dos 90 dias: esse recorte mostra se o problema está na porta de entrada ou mais adiante.

Turnover no varejo é maior que na indústria?

Historicamente sim. O estudo do Dieese mostrou comércio com taxas próximas ou acima de 50%, enquanto a indústria de transformação ficava perto da média do mercado formal. Serviços aparecem em patamar parecido com o do comércio, e não abaixo. Comparar varejo com indústria serve para entender contexto, nunca para definir a sua meta.

Este conteúdo faz parte do guia Como reduzir turnover: o plano de 90 dias na prática.

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