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Custo do turnover

Custo do turnover: quanto uma demissão custa de verdade

O custo do turnover vai muito além da rescisão. Veja os custos visíveis, os ocultos e uma conta completa de quanto uma demissão pesa no seu caixa.

Marcos Dantas12 min de leitura

Perder e repor um colaborador custa muito mais do que a rescisão que sai do seu caixa. A Gallup estima que substituir uma pessoa custa de metade a duas vezes o salário anual dela, e trata esse intervalo como estimativa conservadora. A rescisão é só a parte que aparece.

Traduzindo para o chão de fábrica e para a loja: trocar um colaborador operacional que ganha R$ 2.400 por mês não custa apenas os cerca de R$ 6 mil da rescisão. No exemplo hipotético que você vai ver adiante, a conta cheia (rescisão, recrutamento, treinamento, vaga aberta e curva de aprendizagem) passa de R$ 17 mil por saída, e mais de R$ 1,6 milhão por ano em uma empresa de 200 pessoas com rotatividade alta.

Neste guia você vai ver quais custos entram na conta, quais são visíveis e quais são ocultos, uma tabela somando os dois grupos para um cargo operacional, o cálculo anual de uma empresa exemplo e como levar esse número para a mesa da diretoria sem parecer conversa de RH.

Por que a conta da rescisão engana

Quando o dono pergunta "quanto custou essa demissão", quase sempre alguém abre o cálculo da rescisão e responde com um número. Esse número está errado por dois motivos opostos, e os dois erros importam.

O primeiro erro é que uma parte da rescisão não é custo novo. Férias proporcionais, terço constitucional e 13º proporcional são direitos que já vinham sendo gerados mês a mês. Se a sua contabilidade provisiona corretamente, esse dinheiro já estava reservado. O que muda é o momento do desembolso, não o valor total.

O segundo erro é bem maior: a rescisão ignora tudo o que acontece antes e depois dela. A queda de produção de quem já decidiu sair, os dias com a vaga aberta, o gestor parado em entrevista, os erros do novato, o cliente mal atendido. É aí que mora a maior parte do dinheiro.

A rescisão é a única parte do turnover que alguém lança no sistema. Todo o resto acontece, custa caro e nunca vira linha de despesa.

Em reportagem da SHRM sobre o custo real do recrutamento, a especialista Edie Goldberg estima que 30% a 40% do custo de uma contratação são custos duros (aqueles que você rastreia em nota fiscal) e cerca de 60% são custos indiretos, como o tempo de gestores e do RH. Ou seja, a maior fatia da conta é justamente a que ninguém mede.

Custos visíveis do turnover: o que aparece na planilha

São os custos que você consegue comprovar com documento. Eles se dividem em três blocos: sair, contratar e preparar.

Bloco 1: o desligamento.

  • Aviso prévio indenizado, quando a empresa dispensa o cumprimento. Pela Lei 12.506/2011, são 30 dias mais 3 dias por ano de casa, até o teto de 90 dias.
  • Multa rescisória de 40% sobre o saldo do FGTS depositado ao longo de todo o contrato, e não só do último ano. O recolhimento hoje passa pelo FGTS Digital.
  • FGTS e encargos incidentes sobre aviso prévio indenizado e 13º proporcional.
  • Férias e 13º proporcionais, com o adicional de um terço. Valor provisionado, mas antecipado no caixa.
  • Exame demissional, deslocamento e tempo do DP para fechar a rescisão.

Bloco 2: recrutar e selecionar.

  • Anúncio de vaga, plataformas, banco de currículos, agência ou consultoria.
  • Horas do RH em triagem, entrevistas, testes e checagem de referências.
  • Horas do gestor da área participando das entrevistas finais.
  • Exame admissional, documentação, registro no eSocial.

Bloco 3: preparar a pessoa para trabalhar.

  • Uniforme, EPI, crachá, ferramentas, celular, notebook, acessos.
  • Integração e treinamento inicial: instrutor, material, sala, horas do treinando.
  • Certificações obrigatórias do setor, quando existirem.

Custos ocultos: onde mora a maior parte da conta

Aqui não tem nota fiscal, tem prejuízo. E, como mostra a estimativa da SHRM sobre custos indiretos, essa costuma ser a parte mais pesada da conta.

O que você perde antes da pessoa sair

Ninguém pede demissão de um dia para o outro. A decisão vem semanas antes. Nesse intervalo, a pessoa entrega menos, evita responsabilidade nova, falta mais e conversa com colegas sobre o que está incomodando.

Some a isso o efeito contágio. Quando um bom colaborador sai, a equipe conversa. A pergunta "será que eu também deveria procurar outra coisa" circula pelo grupo. Uma saída bem visível costuma abrir a fila da próxima.

Se a demissão partiu da empresa, o custo também existe: normalmente houve meses de baixa entrega, retrabalho e desgaste do gestor antes de alguém tomar a decisão.

O que você perde com a vaga aberta

Entre a saída e a chegada do substituto existe um buraco. Quem cobre esse buraco é a própria equipe, e ela cobre de três formas, todas caras: hora extra, banco de horas ou simplesmente entregando menos.

No varejo e no operacional, esse buraco aparece direto no cliente: fila maior no caixa, gôndola desabastecida, prazo de entrega estourado, ligação não atendida. É o tipo de custo que não entra em relatório e sai em avaliação de cliente. Quem opera loja sabe bem como isso pesa, e é por isso que o turnover no varejo e em supermercados merece um cálculo próprio.

O que você perde depois que o substituto entra

O novo contratado recebe salário integral desde o primeiro dia. A entrega integral demora bem mais. Essa diferença entre o que você paga e o que você recebe tem nome: curva de aprendizagem.

O prazo varia com a complexidade da função: em cargo operacional simples é questão de semanas; em cargo técnico e, principalmente, em liderança, são meses. Não existe tabela de mercado confiável para isso, então meça na sua operação quanto tempo o novato leva para bater a meta da função. Durante todo esse período você paga salário integral e recebe uma fração da entrega.

Junto vem o resto: horas do gestor acompanhando, horas dos colegas ensinando e corrigindo, erros de novato (quebra, retrabalho, pedido errado, lançamento errado) e o risco de o substituto também não ficar, o que reinicia a conta inteira do zero.

A conta completa de uma demissão em cargo operacional

O exemplo abaixo é ilustrativo, feito para você entender a lógica e depois trocar pelos seus próprios números. Não é dado de mercado. Considere um colaborador operacional com salário de R$ 2.400 por mês e 14 meses de casa, substituído em 25 dias.

Item Grupo Valor estimado
Aviso prévio indenizado (30 dias) Visível R$ 2.400
Multa de 40% do FGTS Visível R$ 1.075
FGTS e encargos sobre aviso e 13º Visível R$ 400
Férias e 13º proporcionais antecipados Visível R$ 2.100
Exame demissional e fechamento no DP Visível R$ 150
Recrutamento e seleção Visível R$ 900
Exame admissional e documentação Visível R$ 200
Uniforme, EPI e ferramentas Visível R$ 450
Treinamento inicial Visível R$ 600
Subtotal visível R$ 8.275
Queda de produtividade nas 3 semanas finais Oculto R$ 900
Vaga aberta por 25 dias (extra e cobertura) Oculto R$ 1.700
Curva de aprendizagem (3 meses a 60% do rendimento) Oculto R$ 2.900
Horas do gestor no processo Oculto R$ 1.200
Horas da equipe treinando o novato Oculto R$ 800
Erros, retrabalho e perda operacional Oculto R$ 700
Impacto no atendimento ao cliente Oculto R$ 600
Subtotal oculto R$ 8.800
Total da troca R$ 17.075

Repare em três coisas. Primeiro, o custo oculto superou o visível. Segundo, o total equivale a cerca de 59% do salário anual dessa pessoa, o que fica dentro do intervalo apontado pela Gallup. Terceiro, cerca de R$ 2.100 do subtotal visível já estavam provisionados, então o desembolso realmente novo fica perto de R$ 15 mil.

Quanto o turnover custa por ano: exemplo de uma empresa de 200 pessoas

Custo por demissão impressiona pouco. Custo anual muda reunião. Vamos ao exemplo ilustrativo, sempre com números hipotéticos.

Imagine uma empresa com 200 colaboradores e turnover de 40% ao ano, ou seja, 80 desligamentos em 12 meses. Uma distribuição possível, ainda dentro do exemplo:

Perfil Saídas no ano Custo médio por saída Total
Operacional 68 R$ 17.075 R$ 1.161.100
Técnico e administrativo 10 R$ 34.000 R$ 340.000
Liderança 2 R$ 95.000 R$ 190.000
Total no ano 80 R$ 1.691.100

Cerca de R$ 1,69 milhão por ano. Agora faça a pergunta que a diretoria entende: se essa empresa trabalha com margem líquida de 8%, ela precisa faturar mais de R$ 21 milhões apenas para pagar a conta da própria rotatividade.

E o inverso também vale. Se essa mesma empresa levar o turnover de 40% para 25%, ela evita 30 saídas no ano. Ao custo médio de R$ 21 mil por saída, isso representa mais de R$ 630 mil que deixam de sair do bolso, sem depender de aumento de venda.

Antes de rodar essa conta com os seus dados, confirme que a sua taxa está correta. É comum a empresa usar uma fórmula que suaviza o número e acabar subestimando a própria rotatividade. Veja como calcular o turnover da sua empresa e depois use a calculadora de turnover para chegar ao número anual em poucos minutos.

Por que o custo sobe conforme o cargo sobe

O salário multiplica, mas não é ele o principal responsável. O que encarece de verdade é o tempo.

Um operador de caixa é reposto em semanas e chega ao rendimento pleno em cerca de um mês. Um gerente de operação leva meses para ser encontrado, meses para entender o negócio e mais um tempo para a equipe voltar ao ritmo. Durante todo esse período, a área inteira produz abaixo do potencial.

Some os fatores que só existem em cargo alto: conhecimento de cliente e de fornecedor que sai pela porta, decisões adiadas enquanto não há responsável, projetos parados, risco de o time seguir a liderança que saiu e custo de consultoria ou headhunter na reposição.

Por isso, a mesma métrica precisa ser lida por camada. Uma empresa com 30% de turnover concentrado no operacional tem um problema. A mesma empresa com 12% de turnover concentrado na liderança pode ter um problema mais caro. Entender os tipos de turnover evita esse erro de leitura.

Como levar esse número para a diretoria

Diretoria não se move com percentual. Diretoria se move com reais, com comparação e com decisão possível. Monte a sua apresentação nesta ordem.

  1. Mostre o custo médio de uma saída por camada (operacional, técnico, liderança).
  2. Multiplique pelo número real de saídas dos últimos 12 meses.
  3. Traduza o total em faturamento necessário para cobrir aquele valor.
  4. Compare com uma despesa que todo mundo na sala conhece, como a folha de um turno inteiro ou o investimento anual de marketing.
  5. Apresente a meta de redução e o valor que ela devolve ao caixa.
  6. Só então fale das causas e do plano de ação.

Antes de apresentar, feche este levantamento:

  • Número exato de desligamentos dos últimos 12 meses, separados por voluntário e involuntário
  • Custo médio de rescisão por faixa salarial, puxado do DP
  • Custo real de recrutamento e seleção por vaga, incluindo horas internas
  • Tempo médio para preencher a vaga, em dias corridos
  • Tempo médio até o novo colaborador atingir a meta da função
  • Percentual de saídas com menos de 90 dias de casa
  • Custo de hora extra e cobertura gerado por vagas abertas
  • Três áreas com maior rotatividade e o custo específico de cada uma

Com o número na mão, o próximo passo é atacar a origem. Comece pelas causas do turnover e depois estruture o plano usando o guia de como reduzir o turnover.

O turnover não é um problema só da sua empresa

Só em maio de 2026, o mercado formal brasileiro registrou 2.207.303 admissões e 2.134.343 desligamentos, segundo o Novo CAGED, do Ministério do Trabalho e Emprego. É gente entrando e saindo em volume gigante, todo mês.

Isso explica por que tanta empresa trata rotatividade como algo natural do negócio. É comum, sim. Barato, não. Cada uma dessas trocas tem uma conta parecida com a que você acabou de ver, e alguém está pagando.

A boa notícia é que rotatividade é gerenciável quando vira número. O que não é medido continua sendo tratado como fatalidade. Se você quer entender o assunto desde a base, comece por o que é turnover. Se quer discutir isso com outros donos e diretores que enfrentam o mesmo, conheça os eventos do movimento Código do Turnover.

Perguntas frequentes

Quanto custa em média uma demissão?

Depende do cargo, do tempo de casa e da velocidade de reposição. A Gallup trabalha com um intervalo de metade a duas vezes o salário anual do colaborador. Em um cargo operacional brasileiro de R$ 2.400 por mês, isso significa algo entre R$ 14 mil e R$ 57 mil na conta cheia, somando custos visíveis e ocultos.

O custo do turnover inclui a rescisão do funcionário?

Inclui, mas com um cuidado. Aviso prévio indenizado, multa de 40% do FGTS e encargos são custo novo. Férias e 13º proporcionais já vinham sendo provisionados mês a mês, então representam antecipação de caixa, não despesa adicional. Escolha um critério e use o mesmo em toda a análise.

Quanto custa contratar um funcionário no Brasil?

Some anúncio, horas de RH e do gestor, exame admissional, documentação, uniforme e equipamento, treinamento inicial e o período de curva de aprendizagem. O item mais caro quase sempre é o último, porque você paga salário integral enquanto recebe uma fração da entrega.

Por que o custo oculto é maior que o visível?

Porque o visível dura dias e o oculto dura meses. A rescisão acontece uma vez. Já a produtividade reduzida de quem sai, a vaga aberta, a curva do substituto e as horas do gestor se espalham por um trimestre inteiro de operação abaixo do normal.

Como calcular o custo do turnover da minha empresa?

Levante o custo médio de uma saída por camada de cargo, multiplique pelo número real de desligamentos dos últimos 12 meses e some. A calculadora de turnover do site faz essa conta com os seus próprios dados em poucos minutos.

Qual é um custo de turnover aceitável?

Não existe número único, porque varia por setor e por porte. O parâmetro útil é comparar o custo anual da sua rotatividade com o seu lucro líquido. Quando a conta do turnover consome uma fatia relevante do resultado, ela deixa de ser assunto de RH e vira assunto de dono.

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