Custo do turnover: quanto uma demissão custa de verdade
O custo do turnover vai muito além da rescisão. Veja os custos visíveis, os ocultos e uma conta completa de quanto uma demissão pesa no seu caixa.
Perder e repor um colaborador custa muito mais do que a rescisão que sai do seu caixa. A Gallup estima que substituir uma pessoa custa de metade a duas vezes o salário anual dela, e trata esse intervalo como estimativa conservadora. A rescisão é só a parte que aparece.
Traduzindo para o chão de fábrica e para a loja: trocar um colaborador operacional que ganha R$ 2.400 por mês não custa apenas os cerca de R$ 6 mil da rescisão. No exemplo hipotético que você vai ver adiante, a conta cheia (rescisão, recrutamento, treinamento, vaga aberta e curva de aprendizagem) passa de R$ 17 mil por saída, e mais de R$ 1,6 milhão por ano em uma empresa de 200 pessoas com rotatividade alta.
Neste guia você vai ver quais custos entram na conta, quais são visíveis e quais são ocultos, uma tabela somando os dois grupos para um cargo operacional, o cálculo anual de uma empresa exemplo e como levar esse número para a mesa da diretoria sem parecer conversa de RH.
Por que a conta da rescisão engana
Quando o dono pergunta "quanto custou essa demissão", quase sempre alguém abre o cálculo da rescisão e responde com um número. Esse número está errado por dois motivos opostos, e os dois erros importam.
O primeiro erro é que uma parte da rescisão não é custo novo. Férias proporcionais, terço constitucional e 13º proporcional são direitos que já vinham sendo gerados mês a mês. Se a sua contabilidade provisiona corretamente, esse dinheiro já estava reservado. O que muda é o momento do desembolso, não o valor total.
O segundo erro é bem maior: a rescisão ignora tudo o que acontece antes e depois dela. A queda de produção de quem já decidiu sair, os dias com a vaga aberta, o gestor parado em entrevista, os erros do novato, o cliente mal atendido. É aí que mora a maior parte do dinheiro.
A rescisão é a única parte do turnover que alguém lança no sistema. Todo o resto acontece, custa caro e nunca vira linha de despesa.
Em reportagem da SHRM sobre o custo real do recrutamento, a especialista Edie Goldberg estima que 30% a 40% do custo de uma contratação são custos duros (aqueles que você rastreia em nota fiscal) e cerca de 60% são custos indiretos, como o tempo de gestores e do RH. Ou seja, a maior fatia da conta é justamente a que ninguém mede.
Custos visíveis do turnover: o que aparece na planilha
São os custos que você consegue comprovar com documento. Eles se dividem em três blocos: sair, contratar e preparar.
Bloco 1: o desligamento.
- Aviso prévio indenizado, quando a empresa dispensa o cumprimento. Pela Lei 12.506/2011, são 30 dias mais 3 dias por ano de casa, até o teto de 90 dias.
- Multa rescisória de 40% sobre o saldo do FGTS depositado ao longo de todo o contrato, e não só do último ano. O recolhimento hoje passa pelo FGTS Digital.
- FGTS e encargos incidentes sobre aviso prévio indenizado e 13º proporcional.
- Férias e 13º proporcionais, com o adicional de um terço. Valor provisionado, mas antecipado no caixa.
- Exame demissional, deslocamento e tempo do DP para fechar a rescisão.
Bloco 2: recrutar e selecionar.
- Anúncio de vaga, plataformas, banco de currículos, agência ou consultoria.
- Horas do RH em triagem, entrevistas, testes e checagem de referências.
- Horas do gestor da área participando das entrevistas finais.
- Exame admissional, documentação, registro no eSocial.
Bloco 3: preparar a pessoa para trabalhar.
- Uniforme, EPI, crachá, ferramentas, celular, notebook, acessos.
- Integração e treinamento inicial: instrutor, material, sala, horas do treinando.
- Certificações obrigatórias do setor, quando existirem.
Custos ocultos: onde mora a maior parte da conta
Aqui não tem nota fiscal, tem prejuízo. E, como mostra a estimativa da SHRM sobre custos indiretos, essa costuma ser a parte mais pesada da conta.
O que você perde antes da pessoa sair
Ninguém pede demissão de um dia para o outro. A decisão vem semanas antes. Nesse intervalo, a pessoa entrega menos, evita responsabilidade nova, falta mais e conversa com colegas sobre o que está incomodando.
Some a isso o efeito contágio. Quando um bom colaborador sai, a equipe conversa. A pergunta "será que eu também deveria procurar outra coisa" circula pelo grupo. Uma saída bem visível costuma abrir a fila da próxima.
Se a demissão partiu da empresa, o custo também existe: normalmente houve meses de baixa entrega, retrabalho e desgaste do gestor antes de alguém tomar a decisão.
O que você perde com a vaga aberta
Entre a saída e a chegada do substituto existe um buraco. Quem cobre esse buraco é a própria equipe, e ela cobre de três formas, todas caras: hora extra, banco de horas ou simplesmente entregando menos.
No varejo e no operacional, esse buraco aparece direto no cliente: fila maior no caixa, gôndola desabastecida, prazo de entrega estourado, ligação não atendida. É o tipo de custo que não entra em relatório e sai em avaliação de cliente. Quem opera loja sabe bem como isso pesa, e é por isso que o turnover no varejo e em supermercados merece um cálculo próprio.
O que você perde depois que o substituto entra
O novo contratado recebe salário integral desde o primeiro dia. A entrega integral demora bem mais. Essa diferença entre o que você paga e o que você recebe tem nome: curva de aprendizagem.
O prazo varia com a complexidade da função: em cargo operacional simples é questão de semanas; em cargo técnico e, principalmente, em liderança, são meses. Não existe tabela de mercado confiável para isso, então meça na sua operação quanto tempo o novato leva para bater a meta da função. Durante todo esse período você paga salário integral e recebe uma fração da entrega.
Junto vem o resto: horas do gestor acompanhando, horas dos colegas ensinando e corrigindo, erros de novato (quebra, retrabalho, pedido errado, lançamento errado) e o risco de o substituto também não ficar, o que reinicia a conta inteira do zero.
A conta completa de uma demissão em cargo operacional
O exemplo abaixo é ilustrativo, feito para você entender a lógica e depois trocar pelos seus próprios números. Não é dado de mercado. Considere um colaborador operacional com salário de R$ 2.400 por mês e 14 meses de casa, substituído em 25 dias.
| Item | Grupo | Valor estimado |
|---|---|---|
| Aviso prévio indenizado (30 dias) | Visível | R$ 2.400 |
| Multa de 40% do FGTS | Visível | R$ 1.075 |
| FGTS e encargos sobre aviso e 13º | Visível | R$ 400 |
| Férias e 13º proporcionais antecipados | Visível | R$ 2.100 |
| Exame demissional e fechamento no DP | Visível | R$ 150 |
| Recrutamento e seleção | Visível | R$ 900 |
| Exame admissional e documentação | Visível | R$ 200 |
| Uniforme, EPI e ferramentas | Visível | R$ 450 |
| Treinamento inicial | Visível | R$ 600 |
| Subtotal visível | R$ 8.275 | |
| Queda de produtividade nas 3 semanas finais | Oculto | R$ 900 |
| Vaga aberta por 25 dias (extra e cobertura) | Oculto | R$ 1.700 |
| Curva de aprendizagem (3 meses a 60% do rendimento) | Oculto | R$ 2.900 |
| Horas do gestor no processo | Oculto | R$ 1.200 |
| Horas da equipe treinando o novato | Oculto | R$ 800 |
| Erros, retrabalho e perda operacional | Oculto | R$ 700 |
| Impacto no atendimento ao cliente | Oculto | R$ 600 |
| Subtotal oculto | R$ 8.800 | |
| Total da troca | R$ 17.075 |
Repare em três coisas. Primeiro, o custo oculto superou o visível. Segundo, o total equivale a cerca de 59% do salário anual dessa pessoa, o que fica dentro do intervalo apontado pela Gallup. Terceiro, cerca de R$ 2.100 do subtotal visível já estavam provisionados, então o desembolso realmente novo fica perto de R$ 15 mil.
Quanto o turnover custa por ano: exemplo de uma empresa de 200 pessoas
Custo por demissão impressiona pouco. Custo anual muda reunião. Vamos ao exemplo ilustrativo, sempre com números hipotéticos.
Imagine uma empresa com 200 colaboradores e turnover de 40% ao ano, ou seja, 80 desligamentos em 12 meses. Uma distribuição possível, ainda dentro do exemplo:
| Perfil | Saídas no ano | Custo médio por saída | Total |
|---|---|---|---|
| Operacional | 68 | R$ 17.075 | R$ 1.161.100 |
| Técnico e administrativo | 10 | R$ 34.000 | R$ 340.000 |
| Liderança | 2 | R$ 95.000 | R$ 190.000 |
| Total no ano | 80 | R$ 1.691.100 |
Cerca de R$ 1,69 milhão por ano. Agora faça a pergunta que a diretoria entende: se essa empresa trabalha com margem líquida de 8%, ela precisa faturar mais de R$ 21 milhões apenas para pagar a conta da própria rotatividade.
E o inverso também vale. Se essa mesma empresa levar o turnover de 40% para 25%, ela evita 30 saídas no ano. Ao custo médio de R$ 21 mil por saída, isso representa mais de R$ 630 mil que deixam de sair do bolso, sem depender de aumento de venda.
Antes de rodar essa conta com os seus dados, confirme que a sua taxa está correta. É comum a empresa usar uma fórmula que suaviza o número e acabar subestimando a própria rotatividade. Veja como calcular o turnover da sua empresa e depois use a calculadora de turnover para chegar ao número anual em poucos minutos.
Por que o custo sobe conforme o cargo sobe
O salário multiplica, mas não é ele o principal responsável. O que encarece de verdade é o tempo.
Um operador de caixa é reposto em semanas e chega ao rendimento pleno em cerca de um mês. Um gerente de operação leva meses para ser encontrado, meses para entender o negócio e mais um tempo para a equipe voltar ao ritmo. Durante todo esse período, a área inteira produz abaixo do potencial.
Some os fatores que só existem em cargo alto: conhecimento de cliente e de fornecedor que sai pela porta, decisões adiadas enquanto não há responsável, projetos parados, risco de o time seguir a liderança que saiu e custo de consultoria ou headhunter na reposição.
Por isso, a mesma métrica precisa ser lida por camada. Uma empresa com 30% de turnover concentrado no operacional tem um problema. A mesma empresa com 12% de turnover concentrado na liderança pode ter um problema mais caro. Entender os tipos de turnover evita esse erro de leitura.
Como levar esse número para a diretoria
Diretoria não se move com percentual. Diretoria se move com reais, com comparação e com decisão possível. Monte a sua apresentação nesta ordem.
- Mostre o custo médio de uma saída por camada (operacional, técnico, liderança).
- Multiplique pelo número real de saídas dos últimos 12 meses.
- Traduza o total em faturamento necessário para cobrir aquele valor.
- Compare com uma despesa que todo mundo na sala conhece, como a folha de um turno inteiro ou o investimento anual de marketing.
- Apresente a meta de redução e o valor que ela devolve ao caixa.
- Só então fale das causas e do plano de ação.
Antes de apresentar, feche este levantamento:
- Número exato de desligamentos dos últimos 12 meses, separados por voluntário e involuntário
- Custo médio de rescisão por faixa salarial, puxado do DP
- Custo real de recrutamento e seleção por vaga, incluindo horas internas
- Tempo médio para preencher a vaga, em dias corridos
- Tempo médio até o novo colaborador atingir a meta da função
- Percentual de saídas com menos de 90 dias de casa
- Custo de hora extra e cobertura gerado por vagas abertas
- Três áreas com maior rotatividade e o custo específico de cada uma
Com o número na mão, o próximo passo é atacar a origem. Comece pelas causas do turnover e depois estruture o plano usando o guia de como reduzir o turnover.
O turnover não é um problema só da sua empresa
Só em maio de 2026, o mercado formal brasileiro registrou 2.207.303 admissões e 2.134.343 desligamentos, segundo o Novo CAGED, do Ministério do Trabalho e Emprego. É gente entrando e saindo em volume gigante, todo mês.
Isso explica por que tanta empresa trata rotatividade como algo natural do negócio. É comum, sim. Barato, não. Cada uma dessas trocas tem uma conta parecida com a que você acabou de ver, e alguém está pagando.
A boa notícia é que rotatividade é gerenciável quando vira número. O que não é medido continua sendo tratado como fatalidade. Se você quer entender o assunto desde a base, comece por o que é turnover. Se quer discutir isso com outros donos e diretores que enfrentam o mesmo, conheça os eventos do movimento Código do Turnover.
Perguntas frequentes
Quanto custa em média uma demissão?
Depende do cargo, do tempo de casa e da velocidade de reposição. A Gallup trabalha com um intervalo de metade a duas vezes o salário anual do colaborador. Em um cargo operacional brasileiro de R$ 2.400 por mês, isso significa algo entre R$ 14 mil e R$ 57 mil na conta cheia, somando custos visíveis e ocultos.
O custo do turnover inclui a rescisão do funcionário?
Inclui, mas com um cuidado. Aviso prévio indenizado, multa de 40% do FGTS e encargos são custo novo. Férias e 13º proporcionais já vinham sendo provisionados mês a mês, então representam antecipação de caixa, não despesa adicional. Escolha um critério e use o mesmo em toda a análise.
Quanto custa contratar um funcionário no Brasil?
Some anúncio, horas de RH e do gestor, exame admissional, documentação, uniforme e equipamento, treinamento inicial e o período de curva de aprendizagem. O item mais caro quase sempre é o último, porque você paga salário integral enquanto recebe uma fração da entrega.
Por que o custo oculto é maior que o visível?
Porque o visível dura dias e o oculto dura meses. A rescisão acontece uma vez. Já a produtividade reduzida de quem sai, a vaga aberta, a curva do substituto e as horas do gestor se espalham por um trimestre inteiro de operação abaixo do normal.
Como calcular o custo do turnover da minha empresa?
Levante o custo médio de uma saída por camada de cargo, multiplique pelo número real de desligamentos dos últimos 12 meses e some. A calculadora de turnover do site faz essa conta com os seus próprios dados em poucos minutos.
Qual é um custo de turnover aceitável?
Não existe número único, porque varia por setor e por porte. O parâmetro útil é comparar o custo anual da sua rotatividade com o seu lucro líquido. Quando a conta do turnover consome uma fatia relevante do resultado, ela deixa de ser assunto de RH e vira assunto de dono.

Marcos Dantas
Idealizador do movimento Código do TurnoverReceba os próximos conteúdos
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